Frequência

Flag Counter

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Uma perspectiva relacional no conhecimento de DEUS

Réplica ao artigo: “Teologia relacional: um novo deus no mercado”
de Augustus Nicodemus

Adauto da Costa Santos[1]

Da leitura do artigo “Teologia relacional: um novo deus no mercado”, do teólogo Augustus Nicodemus (cujo título já é uma provocação por si só), publicado na última edição da Revista Ultimato (Abril/2005), periódico que leio e aprecio desde os tempos em que estudava teologia na Faculdade Teológica Batista de Brasília, lá pelos idos das décadas de 1980/90, descobri um novo rótulo ou estereótipo com o qual prontamente me identifiquei: teólogo relacional.

Aos 48 anos de idade, embora nascido em lar cristão (posto serem meus pais oriundos das igrejas Metodista e Congregacional), só agora assumo finalmente um rótulo após 28 anos de conversão e engajamento eclesiástico ativo, já que não há como fugir à tendência comum ao enquadramento, à classificação, à categorização das pessoas, mesmo nos “arraiais evangélicos”, pecha esta bem conveniente aos fins da manobra fisiológica e utilitarista das massas ignaras (Maquiavel tem feito escola também nos ditos arraiais).

No entanto, ouso refutar com temor e tremor (Judas 1:9) a postura autoritária e o ranço medieval com que o nobre Augustus elabora a inicial de um verdadeiro processo inquisitorial, no qual identifica, rotula, julga, condena e excomunga os ditos “teólogos relacionais”, por prestar-se tal abordagem mais à divisão do Corpo e não à edificação (1ª Coríntios 8:1b) da Igreja do Senhor, antes a dilacera com uma análise superficial, rasa e distorcida da matéria (para saber mais sobre as origens da Teologia do Processo, leia: “MAN´s VISION OF GOD”, de Charles Hartshorne).

Enfim, se fomos feitos Ministros da Reconciliação (2ª Coríntios 5:18), a quem interessa a opção anti-intelectual e destituída de misericórdia e graça de algumas lideranças religiosas em nosso meio, posto que dotadas de posturas assim tão flagrantemente arrogantes, senão à lupina e voraz expropriação do rebanho?

Vamos ao ponto:

A cruz, simbolicamente, nos desafia a uma perspectiva relacional com o próprio Deus e com o próximo, pois o braço horizontal induz-nos a aprofundar relacionamentos fraternos significativos, como pré-requisitos para a efetividade de nosso relacionamento com Deus, este simbolizado na trave vertical (1a. João 3:10-14). A Lei Mosaica, através dos Dez Mandamentos já prenunciava isto, pois os cinco primeiros mandamentos verticalizam nossa relação com Deus e os cinco últimos horizontalizam nossa relação com o próximo. O mesmo se observa também na oração modelo que o Senhor nos deixou: o Pai Nosso (Mateus 6:9-18).

Eis o desafio da verdadeira oração: aprofundar relacionamentos edificantes em amor (Hebreus 6:17-20; João 11:41,42). ORAR e AGIR sem cessar (Filipenses 4:4-21) é a dinâmica da vida cristã autêntica. Contemplação e Catarse, como ritos e superstições, não são disciplinas espirituais, mas práticas místicas que infelizmente vêm se tornando muito populares em nosso meio em conseqüência da visão equivocada que muitos ainda têm da verdadeira essência de Deus.

Em complemento à citação parcial feita pelo articulista (Jó 42:1-5), embora “sem conhecimento absoluto” (1ª Cor. 13:9-12) mas não para “obscurecer o conselho”, senão para expor-me à luz da verdade (João 3:21), procuro fundamentar abaixo a saudável investigação racional acerca da natureza da divindade, postura notória até mesmo no desenlace da revelação progressiva experimentada pelo próprio Jó, que interpreto como dialética e não absolutista, posto que autorizada pelas Sagradas Escrituras, aquelas mesmas que nos exortam a observar o mandamento supremo do amor ao próximo como a si mesmo e a Deus sobre todas as coisas.

Mas que Deus ? Eis a questão. O Deus distante e indiferente dos Teístas Clássicos, irrelevante expectador do desenrolar dos fatos, que o próprio articulista admite não satisfazer mas que, sabe-se lá se por medo das implicações (1ª João 4:18,20), lhe é conveniente não aprofundar? Ou o Imanente Emanuel que hoje nos explicita a essência divina (Hebreus 1): JESUS CRISTO?

No franco exercício de meu Livre Arbítrio, opto pelo Cristo que, por amor (João 3:16, 1ª João 4:8,16), humilha-se e assume a forma de servo obediente até à morte, e morte de cruz (Filipenses 2). Creio no Deus de Abraão, Isaque e Jacó que se apresenta historicamente sensível aos clamores dos hebreus pecadores, diante do protagonista humano Moisés, do meio de uma sarça ardente (Êxodo 3), enviando-o aos seus irmãos aflitos sob o jugo dos exatores egípcios, para livrá-los da escravidão. Há quem diga até que “Deus não tem mãos senão as nossas” (João 11:38-40).

Sim, creio em um Deus responsável (não por tudo o que se passa), soberano (não absoluto), incomparável e insuperável que, no entanto, exerce positivamente seu arbítrio ao conferir ao homem por Ele criado à sua imagem (autônomo e não autômato) parcela expressiva de seu poder e, naturalmente, também de sua responsabilidade sobre sua Criação (Gênesis 1:26-31). Doutra forma, como justificar doutrinas bíblicas clássicas como o Livre Arbítrio (Gênesis 3), a Responsabilidade Pessoal (Ezequiel 18), o Juízo Final (Lucas 16:20-25; 2ª Pedro 3:7, 1ª João 4:17, Apocalipse 22), entre tantas outras mutuamente includentes? Afinal, o próprio Senhor Jesus Cristo, embora potencialmente apto a intervir sobrenaturalmente na circunstância de sua prisão no Getsêmani, optou por restringir-se (Mateus 26:51-54) para que se cumprisse a Escritura.

Quanto ao conhecimento divino acerca do futuro, não pode mesmo ser absoluto já que o futuro ainda não existe, senão como possibilidade (Lucas 14:28-33 - “quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”). Deus projetou para suas criaturas, em seu “Plano A”, as possibilidades alternativas e mutuamente excludentes da árvore da vida ou da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 3), facultando-lhes a oportunidade de divergir a qualquer momento, ainda que avisadas de que estariam sujeitas às conseqüências como responsáveis por sua opção autodeterminada. Tal se verifica na história subseqüente, também com Esaú no episódio da venda de sua primogenitura (Gênesis 25:22-34; Hebreus 12:16,17) ou Judas no episódio da traição ao Mestre (João 12:6; Mateus 26:3). Doutra sorte não haveria necessidade de um “Plano B” (Romanos 8:29) para a redenção de todo o que crer (João 3:18; Romanos 10:9; 1ª João 3:20) compatível com a ignorância dos inimputáveis e de quem sequer for alcançado pela pregação do Evangelho (Atos 17:30, Romanos 2:11-16; Isaías 35:8).

A propósito, cai como uma luva a transcrição abaixo, principalmente por citar o autor de um opúsculo de leitura densa porém altamente recomendável a todo cristão sério e intelectualmente honesto: CRER É TAMBÉM PENSAR, de John Stott.

“Buda de pernas cruzadas e Jesus de braços abertos
Em suas viagens à Ásia, várias vezes John Stott permanecia parado em atitude de respeito diante de uma estátua de Buda. Lá estava o fundador do budismo nascido há mais de 500 anos antes de Cristo, com “as pernas cruzadas, os braços dourados, os olhos fechados, o fantasma de um sorriso nos lábios, sereno e silencioso, com um olhar distante na face, desligado das agonias do mundo”.
Então, em sua imaginação, Stott voltava-se para outra pessoa, para “aquela figura solitária, retorcida, torturada sobre a cruz, com pregos lhe atravessando as mãos e os pés, com as costas dilaceradas, distorcidas, a testa sangrando nos pontos perfurados por espinhos, a boca seca, sedenta ao extremo, mergulhada na escuridão do esquecimento de Deus”.
A visão do Buda de pernas cruzadas e a do Jesus de braços abertos levou Stott a escrever:“[Jesus] colocou de lado a sua imunidade para sentir a dor. Ele entrou em nosso mundo de carne e sangue, lágrimas e morte. Ele sofreu por nós, morrendo em nosso lugar, a fim de que pudéssemos ser perdoados. Nossos sofrimentos tornaram-se mais suportáveis à luz do Cristo crucificado” (Por Que Sou Cristão, p. 68).”

[1] Servo de Deus, Membro da Segunda Igreja Batista do Plano Piloto em Brasília – DF, Secretário do Plano de Gratidão do Campo Brasília-Sudoeste de Os Gideões Internacionais, Analista de Sistemas Sênior da ECT, Ex-seminarista da Faculdade Teológica Batista de Brasília.

Nenhum comentário: